Thursday, December 21, 2006

Nas Pontas do Casco

As pontas, as lascas do vidro, o brilho nas pontas. O sorriso marrom da garrafa quebrada. A proximidade do pescoço. As estrias das lâminas da garrafa na pontaria da veia. O serrilhado do vidro na expectativa do corte. A jugular latente sob a pele pálida.
Detalhe da garrafa no primeiro plano, fundo desfocado, ponto de vista superior, acima e atrás da câmera. Câmera lenta.
A garrafa quebrada de cerveja. O marrom das pontas no pescoço. Entre o gargalo e o pescoço o bojo, as pontas da garrafa. As lascas, as lâminas de vidro. O brilho dos cacos. A mão firme no gargalo, o medo líquido nos olhos. O corpo empurrado contra a parede, a mão agarrando a camisa. Agitação nas mãos, tremores nas faces. Os frêmitos. Mútuos...
Flash!... Imagem congelada, o flagrante. Gesto no ar. Expressões angustiadas.
A vida suspensa na realidade da cena...
Rebobinar a fita. De volta ao início da cena... Externa. Agitação na rua... Ponto zero. Dar o play.
Saída intempestiva, ânimos exaltados, raivas que se espalham pela calçada. Cada um fala, e pára, e gira, e anda, e volta, e grita e agita. E tudo recomeça, o tempo todo. Entre tantos, que se confundem, os dois. Encontram-se os dois. Que se empurram, discutem, xingam, põem tudo pra fora. Da boca pra fora...
Foto confusa. Grupo na calçada. Imagem desorganizada, gestos desconexos. No meio, um avança, dedo em riste. Outro recua, passo leve.
Os dois no centro da roda. Entreveros, recontros. Empurra-empurra, desequilíbrios. A chegada ao bar. As duas portas, os portais de pedra. O balcão do cafezinho junto à rua, a fórmica lisa, o tampo de alumínio. Amontoam-se, apertam-se entre o balcão e a coluna da porta. A pedra lavrada, cantaria. O silêncio perdido do fraco movimento da tarde. O dono por dentro do balcão, o empregado ao fundo, o cliente que sai do banheiro fechando a braguilha. Adentram os que discutem, os que se empurram. A dança convulsa invadindo o salão.
Câmara de mão. Acompanhar a entrada do grupo, zoom fechando em movimentos bruscos. Do plano geral ao americano, do grupo principal aos figurantes do fundo. E vice-versa.
À força de mil razões, o de cabelos brancos empurra o ainda verde sobre o pano surrado do bilhar. O corpo se encolhe no feltro da mesa. Um bote se arma no ataque do outro. A sinuca é de bico.
Gustavo sabe bem que foto faria...
Posicionamento lateral à mesa. Grande grande-angular, 20mm. Enquadrar o corpo na horizontal. No canto, o perfil do outro. Luz ambiente. Abrir meio ponto.
A jogada é inspirada. A bola é a da vez, a vermelha. A primeira à mão... Irado, zune, o rapaz, a bola. O alvo nem vê nem desvia: avança!... A bola tira fino da cuca. O jovem, na mão, sente a coisa preta. A bola sete.
Guilherme dirigiria com precisão a tomada...
Quebra de eixo: ponto de vista do interior do bar para fora. Câmara junto à bola, atrás da mão. Câmara acompanha bola em movimento, em close. Fechar o plano no rosto. Fixar a expressão.
Jogada decisiva, pesada. Sem jeito, sem prática, o teco é errado. Sem mira, a bola preta raspa, apenas, o fio da barba branca. Bolado, o alvo toma a garrafa, a cerveja largada na mesa. Na marra, outra bola, a marrom, é lançada. A defesa faz de taco a garrafa. Na metade, tem peso a cerveja... A bola resvala.
Típico instantâneo. A bola resvalando na garrafa, o rebatedor, com a cara assustada, terminando ainda o gesto, o braço estendido daquele que lança. Sombras dramáticas, ação congelada pelo flash.
A presa gira a mão espalmada no pano, procura mais armas... Nada, acha nada... As bolas estão na caçapa. A defesa se abre. O ataque cresce.
Com a esquerda, Gustavo, o mais velho (mais ágil...), agarra a camisa de Guilherme, o mais jovem (mais leve...). Ao avançar, quebra a garrafa na mesinha de mármore. Desperdiçada, a cerveja se espalha. Cacos tilintam no ladrilho barato.
A camisa amarfanhada na mão, a pressão sobre o peito. O olhar assustado do outro...
A vida nas pontas do casco.
Uma mão feminina, suave (mas, firme...), aperta seu pulso.
Juliana apela.
A lâmina curva da garrafa parece que pára...
A jugular ainda pulula...

4 Comments:

Blogger maristotelica.blogspot said...

Muito bom, gnaldo!
Muito cinema"
Beijossssssssssssss

6:36 AM  
Blogger maristotelica.blogspot said...

quem escreveu é MARISTELA EM CASO DE DUVIDA COM A BRINCADEIRA DO NOME DE UM DOS MEUS BLOGS.
BEIJOSSSSSSSS

6:37 AM  
Blogger MadalenaBarranco said...

Olá Aguinaldo, parabéns pelo merecido prêmio! Nossa, seu conto é uma série de sensações/emoções filmada pelo ângulo do amor-jogo-perigoso. De fato, é uma noz dura de roer - hehehe. Abraços.

7:15 PM  
Blogger Madalena Barranco said...

Olá Guina, voltei para reler o conto, numa forma de saudá-lo em sua publicação na bienal do Rio 2007. E... Como reler uma história leva quase sempre a novas interpretações, desta vez a fotografia escrita de uma cena provou-me que o momento congelado naquele espaço-tempo deu uma dica do futuro e continuidade do drama. A heroína, Juliana, estancou a violência ao segurar-lhe o pulso - ou seja, apesar da violência a esperança do amor está presente e deixa o leitor de certa forma, feliz no final. Beijos.

8:11 AM  

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